terça-feira, 18 de outubro de 2011

Depois do primeiro ano...

Recentemente, recebi um paciente que já entrou na sala me dizendo: "Pronto, você pode me dar a bronca, vim aqui sabendo que você vai puxar minha orelha". Fiquei olhando-o sem entender bem qual seria o motivo que aquele paciente, operado há 2 anos e meio, mantendo-se com IMC de leve sobrepeso, teria para merecer tanta censura. Até ser informado de sua transgressão: ter engordado 4 Kgs.

Sorri para ele, e continuei apenas ouvindo. Estava diante de um paciente com boa percepção de si mesmo, que, lúcido, compartilhava suas mudanças depois da cirurgia. Com um ar "vitorioso" dizia ter mudado até seu paladar, mas principalmente sua relação com os alimentos. Me chamou atenção o lugar que as frutas passaram a ocupar no seu cardápio, substituindo os antigos beliscos.

Bem adaptado, sem restrição alimentar para qualquer alimento, me falava de suas novas preferências, que excluíam, por exemplo, a antes irresistível gordura da picanha. Lembrou não ter acreditado que isto poderia acontecer com ele - naquela altura, antes da cirurgia, ele se achava um obeso irrecuperável. Se dizendo mais educado, também falou de um novo ritmo de se alimentar, e sua certeza de que "a comida não ia fugir".

Tinha alcançado uma serenidade que o tornava apto a tirar bom proveito e prazer daquilo que comia. Menos excitado, comia o suficiente para estar bem, durante e depois de comer, compartilhando sua satisfação em poder dizer, "obrigado, estou satisfeito". Sua disposição para a vida lhe dizia que estava alimentado e que não havia motivo para desejar as grandes quantidades anteriores à cirurgia.

Quanto mais o ouvia, mais eu percebia tratar-se de um caso bem sucedido. Estava diante de um paciente que hoje comia bem, sem qualquer nostalgia dos tempos da hiperfagia (ingesta de grandes quantidades de comida). Que tinha feito trocas que o felicitavam, e estava pacificado com os alimentos. Era um bom exemplo e mesmo assim tinha o direito de não estar satisfeito com o peso extra adquirido.

Contrariando suas expectativas, no lugar da bronca, lhe dei Parabéns! Pelo seu novo posicionamento. Por ter aproveitado a cirurgia para mudança de hábitos e por ter procurado suporte para tratar de sua apreensão, ganho de peso, assim que o percebeu. Lembrei dos pacientes que, com outra trajetória, só vão procurar ajuda quando a apreensão já virou um sofrimento profundo, justificado pelo grande reganho de peso.

Nossa consulta, então, se voltou para a outra ponta desta equação, a atividade física. Este tema fluiu leve, franco e divertido. No final, estava diante de uma pessoa disposta a treinar (e só treinar) em uma academia de luta que frequentou mais jovem. Além disso, iria finalmente aceitar o convite da esposa para participar das aulas de dança de salão. Motivado, decidia que seu sedentarismo estava no fim.

Neste caso que descrevo, tudo que precisei fazer foi motivar o paciente para atividade física, ajudando-o a não adiar seu início, para que sua queixa do sobrepeso fosse superada. No entanto esta não é a posição mais comum dos pacientes com alguma queixa depois do primeiro ano de cirurgia. Em geral as queixas estão relacionadas a maus posicionamentos, com reganho de peso muito mais significativo.

Tenho me ocupado com casos assim. Pacientes que acreditaram que estava tudo resolvido, ao perderem todo seu excesso de peso no primeiro ano de cirurgia, período em que a cirurgia está no controle da situação. Pacientes que acreditaram que as mudanças estariam garantidas, independentemente do quanto tenham se afastado dos padrões de comportamento característico da obesidade.

Em geral, são pacientes que, além de se manterem sedentários, não viveram o processo de pacificar sua relação com os alimentos e a vivência alimentar, e continuam com um importante sintoma presente na obesidade, a culpa alimentar. Quando não vemos os alimentos como fonte de energia, e combustível fundamental para uma saúde vibrante, eles tendem a se tornar o destino de nossas ansiedades.

Estou empenhado, no apoio psicológico do pós operatório, em fomentar o "ato alimentar autorizado e presente", enfrentando o sintoma da culpa alimentar, com a autorização para comer em plena atenção e proveito. Posso chamar isto de padrão gourmet, uma forma extremamente prazerosa de se nutrir sem culpas, tornando-se uma importante defesa para os estímulos impulsivos e o descontrole alimentar.

Estar presente, em plena atenção, na experiência alimentar, significa que não estamos banalizando algo que é fundamental em nossas vidas. Mesmo assim sei que não é uma tarefa simples e fácil, embora necessária. Sei ainda que exige treino, apoio e muito incentivo, sendo uma tarefa psicológica fundamental no pós. Exercitar o padrão gourmet de se alimentar como fonte autorizada de prazer, sem o sofrimento promovido pelos excessos.

O ato alimentar autorizado, pode e deve ocupar o lugar do ato alimentar envergonhado e escondido, que por isso mesmo, tende ao exagero e descontrole. O ato alimentar, com você presente ao que está fazendo, se torna mais seletivo e você poderá gostar do que está fazendo, sem qualquer conotação destrutiva. Pelo contrário, é você finalmente se cuidando, e no controle, tratando-se com a delicadeza que sempre quis ser tratado pelo mundo.

Parece até mais nutritivo, você participando inteiramente da experiência alimentar , sem distrações. Depois que sua nova fisiologia digestiva estiver amadurecida e seu estômago deixar de ser tão "temperamental", porque ganhou elasticidade e pode receber quantidades maiores de alimentos, é fundamental continuar sem banalizar as ingestas, comendo devagar e saboreando os alimentos.

Quando um paciente me relata que não conseguiu este posicionamento em determinada refeição, e comeu sem sequer saber o que estava fazendo, sempre digo que esta foi uma ótima percepção que teve de si mesmo. Isto é importante, já que ao nos condenarmos com críticas severas, estaremos justamente diminuindo nossa percepção de nós mesmos. Ao aceitarmos o percebido, vamos fortalecendo nossa percepção, que hoje aconteceu depois de comermos; amanhã, enquanto estamos comendo; e mais tarde, até mesmo antes de começarmos a comer.

Para pacientes que, antes da cirurgia, viveram as dolorosas experiências da compulsão alimentar, principalmente para estes, o treino da alimentação autorizada e presente se torna fundamental, e precisa ser levado para toda a vida. Para estes, a delicadeza das ingestas consentidas será o principal antídoto contra o padrão impulsivo de comer para preencher vazios.

Hoje mesmo, recebo um paciente que relata que engordou tudo nos últimos 6 anos, quando comeu para se distrair de seus problemas pessoais, e para consolar suas tristezas. Muito diferente da posição atual conquistada, onde passou a comer pela legítima motivação de se nutrir. Nesta nova posição, ousou dizer que a comida ficou até mais saborosa.

O seu primeiro ano da cirurgia deverá ser aproveitado para desenvolver novas habilidades. O acompanhamento psicológico pode ser útil na revisão de velhos padrões de culpa, vergonha e auto-acusação. Livrar-se igualmente do medo da fome e do medo de perder o controle. Livrar-se do esquema de comer por razões emocionais, e deixar de atribuir aos alimentos o valor de "uma tentação" que só te desqualifica.

Esteja autorizado a comer! É um pensamento de gordo a ideia de que existem alimentos "bons" que os magros apreciam, e os "ruins" que são a sua preferência, e estes você nunca mais poderá comer. Isto não funciona assim. Autorize-se a comer, inclusive sua comida favorita, faça isso de forma planejada, um dia da semana, ou no seu fim de semana, no almoço do domingo, mas o faça presente, sem culpa, no padrão gourmet. As porções razoáveis lhe darão um duplo prazer: o alimentar, afinal trata-se da "comida preferida", e o prazer de não ter se excedido com excessos que geram sofrimento.

Com esta autorização planejada, você estará construindo uma boa defesa contra o descontrole alimentar, estando mais apto a evitar as "tentações" do alimento fora de hora ou de planejamento. Esta é uma autorização que fortalece a disciplina, evitando o doloroso sentimento de que pôs tudo a perder. Você se planejou, comeu autorizado e presente, e pode aferir prazer com a comida e ao mesmo tempo a satisfação com você mesmo, por não ter extrapolado nem engordado com isto.

A cirurgia não é uma solução mágica. Depois do primeiro ano é fundamental que, além da nova fisiologia digestiva, você tenha também desenvolvido novas habilidades alimentares. Como comer sem culpa, devagar, apreciando cada porção de alimento que coloca na boca. Mesmo que você já tenha emagrecido sem esta disciplina, saiba que para manter-se magro estas habilidades serão imprescindíveis.

Depois do primeiro ano, você não poderá comer toda a comida que desejar na quantidade que aguentar, sempre que quiser. Isto vai te engordar e certamente te deixar muito infeliz. Mas você pode planejar comer suas comidas favoritas de forma autorizada, comer com prazer estes alimentos em pequenas porções, e isto te dará uma serenidade alimentar, geradora de felicitação, que não irá te engordar.

Quanto ao fracasso do projeto, ele começa antes da reengorda. Quando ter voltado a comer algumas de suas comidas preferidas acarretar a sensação de culpa que irá arruinar um projeto tão desejado. É preciso trocar, neste momento, a ideia de que "Chutei o pau da barraca e não vou conseguir mais montá-la". Este é sem dúvida um pensamento sabotador extremamente nocivo, que não te dá chance de reparação e de aprender com a experiência.Lembrando, não faça de um eventual deslize um álibi para continuar errando.

Mudar sua maneira de pensar sobre a alimentação te autorizará a comer mais devagar, a apreciar a comida sem culpa e só assim sair da vivência, tão comum, de dias bons e dias ruins em termos alimentares. É bom exercitar o comer de forma consciente todos os dias, e que você guarde como um tesouro sua nova referência alimentar, as pequenas porções que te saciam e alimentam.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ritmo Metabólico

Durante toda a minha vida adulta, medindo 1 metro e 73 de altura, mantive de forma estável o peso de 70 quilos. Imagine, uma pessoa adulta com o peso mantido estável por mais de trinta anos. Foram muitos dias, meses, muitas Páscoas e Natais, muitos aniversários, inclusive os infantis. Fui um homem magro, por muitos carnavais.

Mantive meu peso estável durante um longo casamento, mesmo após o nascimento dos meus três filhos; fui magro em períodos de muito trabalho, ocupadíssimo - e também em períodos de entressafra de projetos. E tudo isso, sem precisar me preocupar com o valor calórico dos alimentos que ingeria. Tampouco com as atividades físicas - eu as tinha exclusivamente como fonte de prazer. Caminhadas ao ar livre, corridas, a Hatha Yoga e o Pilates eram minhas atividades preferidas, embora passasse períodos sem praticá-las.

De qualquer forma, tudo que fazia era para meu bem estar, já que não me ocorria qualquer preocupação com o ganho de peso, que nunca acontecia. Meu ritmo metabólico privilegiado me garantia a liberdade gastronômica, sem consequências engordativas. O fato de não engordar, certamente, favorecia uma relação com a comida sem culpas, podendo apreciá-la com seletividade.

Nessa dinâmica eu acabava por comer pouco, e com prazer, já que o registro de saciedade me indicava claramente a hora de parar de comer. Mesmo em períodos quando, por algum motivo (férias e festas de fim de ano), comesse mais, não havia alteração de peso. Só depois dos 50 anos, quando meu ritmo metabólico diminuiu sensivelmente e cheguei aos 81 quilos, vi que o privilégio tinha acabado e que, com a idade, entrava para a categoria das “pessoas normais”, que precisavam se ocupar com o excesso de peso.

Nesta altura já trabalhava com obesidade, e percebi que se não me reposicionasse diante do tema teria uma engorda que me colocaria na condição de um homem de meia idade... obeso. Precisei praticar o que prescrevia para meus clientes, e o resultado foi bom: estabilizei o peso em 76 quilos, algo muito razoável para um homem maduro, de meia idade, que já é avô.

Minha nova condição serviu para confirmar um importante fator desta doença: o ritmo metabólico, que pouco se leva em consideração, sendo cometidas injustiças quando se comparam e julgam, usando o mesmo critério, pessoas com disponibilidades diferentes para engordar. É do ponto de vista do magro que parece inconcebível se deixar engordar tanto. É deste lugar que se produzem as críticas e reprovações do obeso, tachado de relapso, preguiçoso ou desconectado.

Nessas críticas nem se desconfia que o engordamento possa ter sido rápido, e que veio depois de muito esforço para perder ou manter peso, e que em muitos casos "nem precisou de tanto assim". Nunca duvido quando um dos cônjuges, o obeso, se refere ao outro como sendo o que come mais. Já sei que, muitas vezes, acompanhar um magro nas suas fartas e descontraídas porções pode significar um terrível resultado de engorda. Uma questão de ritmo metabólico!

Hoje posso dizer que conheço as duas posições, e dou testemunho pessoal de como são realidades diferentes: a daquele que come sem precisar se preocupar em engordar, e a daquele que, mesmo com importantes restrições alimentares, (nem falo das dietas inimagináveis), mesmo assim não consegue manter-se no peso sem uma disciplinada atividade física. Uma questão de ritmo metabólico!

Como a doença é multifatorial, esta variável não deve ser desconsiderada, principalmente por aqueles que não querem incorrer em preconceito contra a doença (obesidade mórbida) e seus portadores.

Introdução ao livro que estou escrevendo

Depois de um longo intervalo sem escrever no blog, retomo com uma motivação especial.Recentemente uma paciente chega a consulta com os artigos do blog impressos e encadernados. Me disse ser seu "livro de cabeceira" que sempre recorria, para tirar dúvidas, mas principalmente para se tranquilizar por faze-la se sentir compreendida e orientada. Foi interessante para mim, ver aquele conteúdo agora impresso na forma de um livro e sua utilidade prática. A partir de então, me dedico a realização desta tarefa. Escrevo então o artigo sobre ritmo metabólico, que me parece relevante e esta introdução ao livro. O ultimo capítulo ainda no forno, será interativo e os seguidores do blog serão co autores com suas contribuições. Aguardem.

Introdução

O meu trabalho com a obesidade mórbida começa quando uma paciente, que sempre controlou o peso com muita dificuldade, vive um efeito sanfona cruel e em pouco tempo, logo depois das férias, se torna portadora de obesidade mórbida. Muito decidida, chega à consulta me informando que faria a cirurgia da obesidade e que contava comigo para o suporte no seu pós, que sabia ser difícil.

E assim aconteceu, quando tive a primeira experiência com o pós da cirurgia bariátrica. Tratava-se de uma paciente analisada, que fazia de seu pós uma grande oportunidade para se tratar com mais delicadeza, melhorando sua relação consigo mesma e com o mundo à sua volta. Durante o processo me disse que se sentia muito contemplada com o suporte recebido, e sem abrir mão do seu espaço individual, me perguntou o que eu achava de formar um grupo de pacientes operadas para um acompanhamento focal sobre o tema.

Nesses tempos as equipes multidisciplinares estavam engatinhando no Brasil, e o suporte psicoterápico, um privilégio de poucos... a grande maioria continuava acreditando que a psicologia fosse coisa pra maluco. Cheguei a ouvir de um paciente, hoje uma pessoa magra e amiga, ao chegar à consulta: “Então quer dizer que além de obeso agora sou também maluco?”. Isso porque estava tendo que ter seu primeiro contato com a psicoterapia, para o laudo psicológico.

Já faz quase dez anos, mas continua atual a crença de que a psicoterapia é coisa para maluco. Me lembrei de um diálogo recente com minha filha jovem de 24 anos, onde ela ao iniciar novo processo terapêutico, me disse: “Pai, como é bom fazer terapia e ter um espaço, seguro e sem julgamentos, para nos conhecermos melhor e podermos viver nossas potencialidades”. Fiquei feliz por ela, uma filha que sempre se mostrou uma jovem lúcida, saudável e vibrante. Fiquei feliz por vê-la querendo crescer.

Voltando: não foi difícil formar este primeiro grupo de apoio ao paciente operado. Minha paciente que optou pela cirurgia indicou uma amiga, operada em SP e que se sentia totalmente desamparada no seu pós, principalmente quanto ao processo de adaptação alimentar e sua forte identidade com a obesidade, contraída desde menina. Não podia se imaginar magra. Esta por sua vez trouxe uma conhecida, portadora de superobesidade, também às voltas com seu pós operatório realizado no Rio com um cirurgião que ainda não tinha em sua equipe o suporte psicológico.

Por fim, uma quarta paciente que chegou um pouco depois, com uma especificidade, não tinha ainda feito a cirurgia, era apenas uma candidata ao projeto que, mesmo ouvindo as vicissitudes da adaptação alimentar, em pouco tempo veio a realizar a cirurgia, e a participar do grupo como a “caçula” da experiência. Este grupo de terapia foi minha primeira experiência com o acompanhamento psicológico na obesidade.

Nesse tempo, tudo o que eu tinha de acúmulo com relação à obesidade especificamente eram os problemas adaptativos destas pacientes operadas e suas identificações com sintomas de ansiedade e impulsividade. Não conhecia seus resultados finais. Como se tratava de quatro mulheres interessantes, todas com muita energia e tônus emocional, ganhei forte motivação para o aprofundamento do tema, me dedicando ao estudo dos transtornos alimentares e suas terapêuticas.

A doença que portavam devia ser realmente muito sofrida, eu pensava, para merecer este desconhecido processo de pós. Este grupo viria representar um marco na minha trajetória profissional quando, em uma tarde, recebo um telefonema. Do outro lado da linha estava uma pessoa que se apresentou como o cirurgião de uma das minhas pacientes do grupo, que via enormes progressos no seu posicionamento depois do início deste trabalho e queria me conhecer.

Marcamos no meu consultório, e na hora agendada tive o prazer de conhecer Dr. Paulo Athayde Lopes. Um cirurgião inteligente e sensível, com quem tive imediata empatia.

Começava aí uma parceria e amizade. Paulo me falava da doença e da sua gravidade, do impasse que ela gerava, do seu ciclo vicioso e principalmente do que representa se sentir como uma bomba relógio prestes a explodir. Afirmava que não se tratava de uma aventura médica, e que nos EUA, de onde veio seu aprendizado, era um procedimento já consolidado, e com uma estatística surpreendente de bons resultados.

Ele me falava ainda de sua satisfação com os primeiros resultados já obtidos, principalmente com os jovens a quem ele via renascer para uma vida saudável e vibrante. Também lembrava que esta ferramenta tinha uma indicação bem precisa: para pacientes que já usaram todos os recursos para perda de peso, e ainda assim, se encontravam portadores de uma doença crônica e nada benigna chamada obesidade mórbida, medida por uma relação entra peso e altura, conhecida como IMC (índice de massa corporal). Não era, portanto, um “capricho estético”.

Paulo me alertava, inclusive, para o fato de que o mesmo preconceito que a doença sofria era extensivo à terapêutica que melhores resultados trazia para os seus portadores. Compartilhava sua satisfação de ver seus pacientes no que chamava “o melhor dos mundos”: comer pouco e ficar satisfeito.

Era com muita energia e vigor que defendia o direito de obesos mórbidos e super obesos doentes crônicos, de mau prognóstico clínico poderem contar com uma ferramenta capaz de deixá-los livres dos seus excessos, e recomeçar. Hoje, mais de 10 anos depois, vejo que este preconceito ainda acontece, mas ele não tem resistido aos excelentes resultados, que são transmitidos principalmente “no boca a boca”, por quem já se beneficiou.

Estes resultados tendem a derrubar argumentos contrários, principalmente para aqueles que lutam com as interdições de suas obesidades mórbidas. Hoje, mais de 10 anos depois, com mais de 1000 pacientes acompanhados, amadurecemos. Aprendemos com nossos pacientes, os bons resultados nos fortaleceram, os maus resultados serviram de experiência para evitarmos as armadilhas deste caminho, que por ser absolutamente um caminho real, e não mágico, terá o valor de uma importante superação, principalmente para quem trilhá-lo com o comprometimento de viver mudanças.

Certa vez um paciente, profissional muito especializado e requisitado pelo mercado, com uma carreira brilhante e muito exigida me disse: “Antes de ir para os meus inúmeros desafios profissionais, vou para aquele lugar de quem venceu o que parecia invencível (sua superobesidade), e aí me sinto mais seguro, confiante e com tônus para enfrentá-los, sem hesitação. Sem dúvida vencer esta doença crônica e nada benigna pode trazer uma felicitação interna, um tônus emocional precioso para se viver ciclos virtuosos de bons cuidados consigo mesmo.

Para mim tem sido muito gratificante acompanhar esta caminhada de superação de tantos, que se encontravam sem saída e reféns dos excessos vividos na obesidade.
Este livro pretende colaborar para que, sem a ilusão de uma saída mágica, a terapêutica cirúrgica possa ser vivida como uma preciosa oportunidade para “operar” as mudanças necessárias para se seguir a vida literalmente mais leve... e saudável.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O dumping e o açúcar

Sempre que falo do dumping, me lembro do Dr. Paulo Athayde. Em uma de nossas primeiras reuniões, diante de uma plateia atenta, de candidatos a cirurgia, disse que gostava do dumping porque ele servia, como um guardião atento, contra o uso do açúcar.

- Ainda bem que ele existe; só assim se fica protegido do uso desta substância sem nenhum valor nutritivo e muito calórica.

Para surpresa de todos, Dr. Paulo se disse amigo deste fenômeno que assustava nossos clientes.

Depois da reunião, costumávamos sair para jantar. Paulo gostava de um japonês em Copa, chamado Azumi. Curioso que se recusava a pedir o tradicional combinado de sushi e sashimi. "Viemos a um japonês de verdade, então vamos conhecer esta preciosa cozinha". E tomava a frente com pedidos realmente deliciosos. Como bom gourmet, ele dizia: "Este é de comer rezando!". E íamos saboreando as delícias servidas.

Tínhamos ótimos momentos, e juntos confirmávamos a ideia de que o ato alimentar pode ser um momento de prazer sem culpas. Estávamos presentes, e nos deliciávamos com os sabores em um ritmo, que por mais deliciosa que estivesse a comida, a saciedade se colocava, e então... podíamos conversar. O ambiente de acolhimento e privacidade, bem ao estilo oriental, favorecia ainda mais esta troca. Foi neste momento que o questionei sobre seu elogio ao dumping na reunião.

- Mas, Paulo, você está atribuindo ao dumping uma função que é da reeducação alimentar.

Ele me olhou de forma enérgica e atenta, com uma pausa de quem queria ouvir bons argumentos, e prossegui: "O dumping é uma loteria, não acontece com todos - além disso, tem aqueles que o esperam, depois de uma ingesta de açúcar, já sentados, banalizando seus efeitos. Melhor do que ele, é a abertura para o doce que há nas frutas, nos legumes e até no leite, na sofisticação do paladar.

Falei num fôlego só e esperei, até que ele respondeu com um aceno de que estávamos de acordo com o tema. Sinto saudades deste espaço que tínhamos para botar a conversa em dia e exercitarmos o prazer da boa mesa. Curioso que não me lembro, nas inúmeras vezes que fomos ao Azumi, de termos pedido sobremesa. O que não faltava era o chá, de sabores sofisticados, que tomávamos evidentemente sem açúcar.

Bastava chegar a reunião geral do mês seguinte para o Dr Paulo se dizer novamente um "amigo" do dumping na prevenção da ingesta de açúcar. Sempre me levando a lembrá-lo dos argumentos, aceitos por ele, que colocavam o dumping na condição de um efeito colateral da cirurgia. Ele podia ser evitado por uma nova consciência alimentar em que quantidades fossem trocadas pela qualidade dos alimentos.

Esta era uma discussão importante, que refletia onde terminava a função mecânica das restrições da cirurgia e onde começava a função psicológica das mudanças de posicionamento na relação com a comida e suas escolhas. De qualquer forma, é fundamental darmos informações técnicas sobre o fenômeno do dumping para candidatos à cirurgia e pacientes operados. Informação é poder, e queremos nossos pacientes informados e poderosos em seus processos do pós-obesidade.

Para falarmos do dumping é claro que precisamos falar de um pó branco e doce, um ácido cristalizado, sem qualquer valor nutritivo, chamado açúcar.

Quando jovem, li um livro dedicado ao açúcar que me marcou, e a muitos da minha geração. Sugar Blues, de William Dufty, um médico americano que considerava o açúcar o inimigo numero 1 da boa saúde. Muitos, inclusive eu, evitávamos sua ingesta por considerá-lo uma droga pesada, capaz de nos envenenar e nos enfraquecer diante das forças conservadoras que queríamos transformar.

O modelo de vida e os valores que sustentavam a geração anterior se mostravam impróprios para quem queria viver todo seu potencial de felicitação e realização. Seu autor escrevia bem e de forma panfletária sugeria que nos afastássemos daquela "droga" que iria destruir a saúde de uma sociedade que precisava manter-se saudável para enfrentar seus muitos desafios.

Era um tempo em que toda uma geração lutava por um mundo melhor, por liberdade, pela paz, e por um exercício amoroso e sexual sem hipocrisias, onde as diferenças entre homens e mulheres não acarretassem tantas desigualdades. Me encantava a bandeira do movimento feminino: diferentes mas não desiguais! No Brasil vivíamos forte opressão de um regime militar, que oferecia "o pão e o circo" como uma fonte de controle e submissão.

Tempos rebeldes. Queríamos reverter a ordem imposta, e o açúcar se tornou vilão, o provedor de uma doce ilusão da realidade que nos empenhávamos em mudar. Este tempo ficou para trás, os anos 70 passaram e suas lutas trouxeram conquistas e liberdades que hoje as novas gerações usufruem. No Brasil vivemos em uma democracia, conquistamos a tão desejada liberdade de expressão, e hoje, mais do que conteúdos panfletários, as informações balizadas têm valor.

E neste processo banalizamos o consumo desta substância, que passou de veneno a alimento imprescindível na nossa alimentação - até de nossas crianças e bebês, ditando um paladar sem sutilezas, com muito açúcar e muito sal. Coitadas das nossas papilas degustativas, que com este bombardeio se inibem, deixando de sentir as nuances do bom paladar.

Embora eu tenha me acostumado ao café sem açúcar, resquício desta época, ele deixou de ser "o veneno a serviço do mal". A flexibilidade diante desta substância foi tal que a Coca-Cola, por exemplo, passou a estar diretamente associada às minhas refeições nos restaurantes, preferencialmente acompanhada de gelo e limão. Não fazendo mais diferença o fato de esta empresa multinacional ser a maior consumidora de açúcar do mundo.

No pedido ao garçon ela é quem chega primeiro à mesa, com seu ar de inocência, sem teor alcóolico, algo que qualquer criança pode saborear. Quem hoje já não viu, ou ouviu falar de Coca-Cola servida em mamadeira? E na obesidade infantil?

Quando, em 2004, tive um grave problema de saúde e perdi o rim direito, tive a prescrição de beber no mínimo 2 litros de água por dia. Achei muito, até me lembrar de pacientes que bebiam 4 litros de Coca em um só dia. Hoje, curado, consigo entender a felicitação de quem supera sua obesidade.

Não preciso lembrar que atendo obesos mórbidos e superobesos, e que há uma relação direta entre Coca-Cola e obesidade mórbida.

Voltando ao açúcar, é bom lembrarmos de sua qualidade de ser uma droga prazerosa, um ácido cristalizado extremamente calórico, sem qualquer valor nutricional, que precisa ser usada com moderação e cautela. Estudos confirmam que se trata de uma substância nociva no consumo puro ou em grandes quantidades.

Para os nossos ancestrais o sabor doce sempre foi muito apreciado e dava muito prazer. Gosto de lembrar que tudo que é fundamental para a preservação da espécie vem acompanhado de prazer. O prazer do sabor adocicado servia de indicador para se distinguir o alimento saudável dos venenosos e estragados. Portanto, este prazer não estava associado a algo nocivo e perigoso, como nos dias de hoje; ao contrário, tinha função preservadora.

Além disto, junto ao sabor dos frutos e frutas, eram ingeridas as fibras destes alimentos. Uma digestão, portanto, muito diferente daquela proveniente de altas concentrações de açúcar, produto industrializado com alto grau de pureza e refinamento, sem presença de fibras.

Este ácido cristalizado, inclusive, está sempre presente em nossas mesas. Põe-se açucar no mamão e até no Nescau do filho, que é um achocolatado cheio desta substância, e o resultado paradoxal é não sentirmos o doce sabor dos alimentos. Nos tornamos grosseiros com o paladar, que só registra como saboroso algo que acaba por nos fazer muito mal, o que nos torna contraditórios, ao ponto de não vivermos sem aquilo que pode até abreviar nossas vidas.

O açúcar, por ser algo tão refinado, sem qualquer nutriente, vai direto para o sangue, chegando rápido demais na corrente sanguínea, aumentando subitamente seu nível de glicose. Aí, o pâncreas é obrigado a produzir uma quantidade extra de insulina. A insulina produzida é que baixa o nível da glicose; então você come mais açúcar, sobe o nível de glicose, aumenta a produção de insulina, baixa o nível de glicose novamente.

Este ciclo permanente é tão intenso que o pâncreas, na expectativa de novas ingestas, já produz por conta. Atordoado, sai produzindo insulina, chegando ao ponto de você comer um bombom e ele produzir insulina para uma caixa inteira. Este é o ponto da hipoglicemia, um estágio considerado pré-diabético.

A total ausência de nutrientes do açúcar, que faz com que ele seja digerido quase instantaneamente, provocando rápida elevação no nível de glicemia, otimiza o depósito de gordura nas células, nos engordando.

Além disso, um dos efeitos nocivos da subida rápida da glicose no sangue é o aumento da secreção de insulina pelas células do pâncreas. É este hormônio que joga a glicose para o interior da célula, onde será metabolizada para se transformar em energia. Insulina em excesso baixará as taxas glicêmicas rápido demais, o que pode acarretar aumento do apetite para novas ingestas de açúcares.

É neste contexto digestivo que acontece o Dumping um efeito colateral da cirurgia, em que soma-se o tamanho do novo estômago ao fato de deixar-se de ter, na sua saída, a válvula chamada piloro (que acompanhou o estômago maior, que já não recebe o alimento). Estes fatos produzem uma passagem rápida dos conteúdos gástricos para o intestino, e tratando-se de açucares este conteúdo, pode acarretar os efeitos paradoxais de hipoglicemia e seus sintomas.

Os sintomas mais comuns são náusea, fraqueza,sensação de desmaio, suor frio e diarreia, que poderão ser evitados e vistos como alerta: tive dumping = estou comendo mal. Seja pela seleção de alimentos, seja pela rapidez com que estou mastigando e engolindo.

A gastroplastia desmascara um alimento branco e inocente, mostrando o que os glutões de doces e balas, adultos e crianças só perceberão através dos resultados dos seus exames clínicos. Não se come tanto açúcar assim impunemente.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O resgate de um grande aliado

Tudo que é fundamental para a sobrevivência da nossa espécie vem acompanhado de prazer. O ato alimentar, combustível imprescindível para vivermos a vida, é prazeroso. O ato sexual, através do qual geramos nossos descendentes e perpetuamos a espécie, é prazeroso. A atividade física, que foi um dia, para nossos ancestrais nômades, fundamental para garantir o deslocamento até regiões de melhor caça e pesca, é da mesma forma muito prazerosa.

Todas estas atividades, vitais para a espécie, produzem uma química que podemos chamar de química do bem estar. Portanto, são áreas mais do que legítimas de nossas vidas, que podemos considerar como vitais para nossa felicitação. Comer bem, e com prazer, assim como viver sua sexualidade autorizada e com prazer, é hoje um consenso entre as necessidades do homem moderno, que no entanto acredita poder viver sedentário.

Desligado dos aspectos de sua natureza, negando sua base fisiológica, se imagina feliz quando pode criar um estilo de vida que nada lhe lembre este distante mundo primitivo de seus ancestrais. Como "homem moderno", valoriza o mental, e isto pode chegar ao radicalismo de negar o corpo e sua fisiologia. Quando faz assim, desperdiça um enorme potencial, reservado ao ser humano e suas preciosas possibilidades.

O orgulho de ser uma pessoa muito ocupada, cheia de compromissos, sem tempo a perder e que usufrui de todos os recursos tecnológicos, para justamente "facilitar sua vida", pode ajudar a esquecer de contemplar algumas necessidades fundamentais. Às vezes ser "importante para o mundo", medida essa importância pelas horas que você dedica a ele, pode te levar a esquecer da sua própria importância neste mundo. Cuidando-se melhor, você cuidará de tudo melhor!

O condicionamento físico te habilita a uma saúde vibrante e, de posse desta saúde, tudo que você fizer será feito ainda melhor. Não é justo imaginar que para dar conta de suas responsabilidades e compromissos, o preço a pagar seja esquecer de você mesmo. É bom começar a pensar que o tempo que você se dedica à atividade física não está roubando o tempo de coisas mais importantes. Ao contrário, estará qualificando tudo que você fizer.

Como psicólogo e praticante, sei dos efeitos antidepressivos que uma boa caminhada tem. Além de estar queimando calorias através do exercício aeróbico, você estará produzindo uma poderosa química de prazer, natural e sem contraindicação. As atividades físicas ao ar livre têm um valor extraordinário para o relaxamento e o bem estar, e podem ser responsáveis pelo cansaço benigno, para o qual encontraremos o bom descanso.

Estimulamos a atividade física, em geral, com um mês de cirurgia. Neste momento, sua dieta não é mais tão pobre, quanto foi na fase líquida, e se sentindo mais forte, é justo que você procure ter mais tônus. As caminhadas são indicadas, mesmo que você ainda tenha grande excesso de peso, e com delicadeza, poderá vivê-la como símbolo de um novo tempo de sua vida, mais responsável por você mesmo e pela sua qualidade de vida.

Se você ainda está muito acima do peso, é bom lembrar que no meio aquático você estará com apenas 40% do seu peso, portanto muito mais leve. Foi neste meio que estivemos antes de nascer, ele é acolhedor, e nele podemos ter uma percepção muito especial das fronteiras e limites do nosso corpo. Sempre aconselho aos meus pacientes, que começaram com a hidroginástica, que entre um exercício e outro, prestem atenção na percepção apurada de seus corpos neste meio.

Este contato favorece a uma boa consciência corporal e a percepção das mudanças, que foram tão desejadas. Mesmo no banho este é um bom exercício: deixar que a água escorra pelo seu corpo com sua plena atenção, e poder observar as mudanças. Este contato com a água, mais densa que o ar, promove uma percepção das fronteiras corporais, importante para quem emagreceu e precisa atualizar sua autoimagem corporal.

As técnicas passivas, como massagens relaxantes e a drenagem linfática, através do contato manual, podem oferecer, além das suas indicações específicas, uma boa conexão com o seu corpo, que vive grandes transformações de volume, forma e até do centro de equilíbrio. Tocando-o ou deixando-se tocar, você se reaproxima de seu corpo tirando-o de um exílio de sua consciência e cuidados. Olhar para suas marcas e cicatrizes sem rigor é aproximar-se de um forte e leal aliado de que você dispõe na vida: seu corpo.

É duro ouvir pacientes quase no seu peso ideal se perceberem ainda obesos como antes. E isto por estarem no antigo padrão psicológico de profunda desconexão com o corpo. Pelo fato de a terapêutica cirúrgica ter uma ótima estatística para perda de peso, você poderá aproveitá-la para se tornar mais corajoso e encarar seu corpo sem negação. Olhando para ele com mais carinho, movimentando-o, ele tenderá a retribuir com mais tônus, elasticidade e massa muscular.

O "prazer" do sedentarismo contempla mais nossas depressões do que a nós mesmos. É claro que sabemos que o que é bom para um organismo saudável pode ser letal para um organismo doente e obeso. Isto justifica o fato de você ter ficado tanto tempo sedentário, afinal carregando tantos excessos, era natural que você se afastasse dos desconfortos que a atividade física te proporcionava. Mas agora é bem diferente, e você precisa se redescobrir sem a doença.

A química é boa! Seu organismo a estará produzindo, sem dúvida, e você precisa experimentá-la sem cerimônia, isto te fará muito bem. Se você já foi um atleta, ou mesmo praticou algum esporte, tanto melhor. O momento será de resgate de um elo perdido que, recuperado, te trará ainda mais prazer e satisfação... os resultados te surpreenderão.

Toda e qualquer culpa que você carregue por ter chegado a um corpo obeso não resistirá à reparação de tratá-lo com respeito e dedicação. Encare o fato de que a força reparadora de seu novo posicionamento é enorme, e sem culpas aumentam suas possibilidades de recuperação, por maior abandono que seu corpo tenha vivido.
Não o julgue mal, troque a lente rigorosa e cruel com que você tem se olhado, por outra lente mais delicada e empática. Suas chances aumentarão.

Só com este novo olhar as cicatrizes da obesidade mórbida deixarão de ser feridas abertas, tornando-se marcas corporais da superação de uma grande batalha, e poderão deixar de te constranger. Como dizia minha avó, o que não mata, fortalece, e se a obesidade não te matou, até suas marcas podem ser motivo para seu fortalecimento pessoal, a expressão visível de uma importante auto-superação.
É bom ainda lembrar que ao final de todo este processo você ainda poderá contar com o legítimo recurso da plástica reparadora.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Quem te disse que era mágico???


Como vimos nos artigos anteriores, o projeto da terapêutica cirúrgica, embora muito eficaz para a superação da obesidade, não acontecerá sem a sua participação, te exigindo um prolongado processo de adaptação à sua nova condição. Vimos o quanto o estômago reduzido ditará as novas condições alimentares, em que a quantidade de comida e o ritmo em que ela é ingerida serão bastante diferentes do que eram antes.

Vimos ainda a experiência fisiológica inédita de não produzir grelina, o hormônio da fome, como uma aliada na superação do padrão alimentar anterior, em que você esteve refém de uma fome assustadora e insaciável. Vimos ainda que a produção de grelina voltará a acontecer, só que em novas condições, e você, bem orientado, não precisará se preocupar com isto.

O ritmo da ingesta ditado pelo estômago reduzido te assegurará a percepção da saciedade precoce e esta, o limite da quantidade e a hora de parar de comer. Deixar de ter culpa de se alimentar é o que vai te autorizar a estar absolutamente presente neste momento e só assim viver a experiência admirável de se nutrir e ficar satisfeito.

Sem culpa, autorizado e presente, você se vacina contra a compulsão, um transtorno alimentar incompatível com o prazer de comer. E você, que veio de uma dieta líquida, passou pela pastosa, e viveu as grandes restrições de quantidades do início da fase sólida, pode se autorizar a comer sem culpas, como não era possível antes. Até porque você, a esta altura, já emagreceu o que antes lhe parecia impossível e sua fome nunca mais foi a mesma.

Bom, todas as considerações acima estão relacionadas à ingesta de alimentos e de calorias correspondentes às quantidades ingeridas. E, neste sentido, é bom lembrar que seu estômago pequeno não será capaz de criar células de estômago, portanto de crescer como nossos cabelos crescem. Poderá, isto sim, receber quantidades maiores de alimentos, na medida em que amadurece na sua função digestiva.

Isto é natural, e me recuso a considerar uma má notícia, afinal as ingestas iniciais não seriam viáveis para se ter uma vida social razoável à mesa, e cá entre nós, isto te faria muita falta. No entanto, ex-obesos homens, com mais de 1 ano da gastroplastia relatam poder comer no restaurante a quilo até 400 g. Já as mulheres chegam a algo em torno de 200 e 250 g. É claro que precisando de um tempo maior que antes, quando praticamente engoliam a comida.

Com estas quantidades possíveis, você não trocou o que seria seis por meia dúzia, e não manterá grande restrição social. Isso dura enquanto você está se adaptando, e quanto melhor o fizer, mais perto destes limites (homens/mulheres) você se aproximará. Não haverá nada de constrangedor socialmente nestas novas quantidades, ao contrário, te trará um orgulho secreto, e uma legítima felicitação interna por estar satisfeito/saciado com pouco.

Quando em nossas reuniões pacientes com mais tempo de cirurgia falam destas possibilidades, que não excluem sequer as carnes nos churrascos, afinal não puseram o anel de silicone, vejo as caras de incrédulos daqueles que não chegaram a este tempo de cirurgia. Isto vai acontecer comigo também, que como tão pouco?... será??? Com certeza, principalmente para aqueles que no período adaptativo contaram com bom suporte para viver sua adaptação sem traumas.

Para muitos a adaptação foi tão boa e com uma evolução tão favorável, que podem viver o melhor dos mundos, como dizia o Dr Paulo Athayde, que é comer de tudo e ficar satisfeito com pouco. E olha que estas quantidades mencionadas nem são tão pequenas assim. Para outros, pequenos traumas, como ingestas mal mastigadas acompanhadas de dores e vômitos, geraram desconfortos que não devem ser encaradas como preço a pagar para os operados.

Já acompanhei pacientes que não concluíram bem a adaptação do sólido e precisaram voltar ao seu início, antes que desistissem do alimento sólido trocado pelo pastoso, claramente mais simples de se realizar: Está bem assim! Pelo menos, os alimentos pastosos me caem bem.
Esta é uma falsa conformação, que costuma vir acompanhada de compensações alimentares perigosas, como a troca de refeições por alimentos industrializados, que chegam pastosos no estômago.

Muitos que não tiveram paciência para viver a adaptação aos alimentos sólidos acabaram precisando voltar ao início desta fase, mastigando e saboreando quantidades bem menores, o que se recusaram a fazer lá atrás. Do contrário acabariam por se compensar através de beliscos calóricos - o amendoim parece que cai muito bem, e o álcool também pode descer redondo. Ficar conformado com este "equilíbrio" não é justo e até perigoso.

Se este for o seu caso, é importante que você procure ajuda especializada para retomar sua adaptação alimentar de onde ela parou. Para quem teve a coragem e se submeteu a uma terapêutica tão radical e cirúrgica, ficar preso a velhos padrões que só trouxeram sofrimento não faz muito sentido. Desapegar do antigo padrão alimentar também é radical, e esta é uma radicalidade imprescindível, porque é ir na raiz do problema e se abrir à reeducação alimentar.

Volto a lembrar: a quantidade de alimento vai aumentar, mas para que isso aconteça sem problemas você terá que ter paciência neste início da alimentação sólida. Independente da quantidade colocada no prato, é importante estar atento para a quantidade colocada no garfo. Grandes garfadas podem representar grandes desconfortos, pelo risco maior de chegarem alimentos mal mastigados ao estômago.

Quanto mais calmo e paciente com o início mais restritivo você estiver, mais rápido chegará à adaptação desejada. Seja radical, tanto quanto a terapêutica que você escolheu para superar a obesidade. Aceite comer este pouco para que ele evolua. Estou falando do início da fase sólida, quando o piloto automático da alimentação é inviável. Esta fase adaptativa tem se mostrado até mais difícil, para alguns, do que a fase líquida, quando as regras são pontuais, rígidas e inegociáveis.

Saboreie o alimento em pequenas garfadas, é muito melhor que você o detenha por mais tempo na sua boca, mastigando e sentindo seus sabores, do que tê-los engasgados pouco acima do diafragma, promovendo dores e enjoos que só aliviam após serem postos para fora. Esta é uma experiência dolorosa que você evita sendo mais paciente e calmo na hora de comer. Nesta fase, te será exigida muita paciência, e só ela te garantirá a boa adaptação.

É bom que você não desanime com estas eventuais dificuldades, encare este processo como um desafio/treino que te colocará em uma situação invejável de emagrecer, comendo com prazer. Com o tempo de cirurgia, sua capacidade de comer aumenta, isto é certo, ao ponto de ser imprescindível, para manutenção do peso alcançado, a ruptura com a vida sedentária. Mas isto já é assunto para o próximo artigo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Fase sólida: quantidade por qualidade


Dando continuidade à evolução de sua dieta, chegou a hora dos alimentos de consistência sólida.

A normalidade tão esperada se aproxima, mas não deve ser confundida com a possibilidade física de voltar a comer as quantidades do velho padrão. Isto não é mais possível e, se você tentar, entenderá o que estou falando. Os desconfortos descritos revelam um grande mal estar. Mesmo já cicatrizado, o estomaguinho parece que vai explodir, você exagerou.

Se isto já te aconteceu e você sobreviveu, ou se ainda te acontecer, lembre-se: o melhor a fazer é se desvencilhar das culpas e se perdoar. Não perca muito tempo se criticando, não será útil para o seu projeto. Sinta a tristeza que acompanha o velho padrão e siga em frente, sem ela. Refaça o bom pacto contigo mesmo, mantendo-se aberto ao novo, usufruindo dos seus resultados.

A cirurgia é uma oportunidade ímpar para mudanças de hábitos alimentares destrutivos e geradores de sofrimento. Mas seu apredizado não é linear, está sujeito a "ensaios e erros", e conta com sua determinação em não estar identificado e prisioneiro de um velho padrão. Você terá uma boa chance de superar uma falsa identidade adquirida com a doença.

O pacto com o estômago hiperfágico, de grande capacidade de receber alimentos, sugere poder comer à vontade, sem precisar prestar muita atenção ao que se está fazendo, de preferência não perdendo muito tempo com isso. Aproveitando para ver tv, ler o jornal, entrar na internet e mesmo falar no telefone. Resumo: quanto mais distraído melhor.

Aquele estômago era um bom parceiro, disposto a receber grandes quantidades de comida. Você, distraído com outras coisas, não percebendo a monotonia do ato alimentar, vai poder comer tudo isto, e mais um pouco. O estômago camarada pode produzir tudo que for necessário de suco gástrico para digerir toda a comilança, só te cobrando, talvez, um antiácido para aliviar uma eventual queimação, refluxo ou azia, efeitos naturais deste processo.

Este acordo é absolutamente inviável depois da gastroplastia. O estomaguinho não terá esta mesma capacidade. Ainda mais agora, no início da introdução do alimento sólido. Neste primeiro momento, sua capacidade de digerir será em porções realmente pequenas e, mesmo assim, precisando serem mastigadas e saboreadas com você muito presente. Dedicar-se ao ato alimentar, sem tensão e com a curiosidade dos gourmets para novos sabores, é o melhor posicionamento.

Não precisa ter pena de você mesmo pelas porções inicialmente tão pequenas. Isto não ficará assim, sua capacidade de ingesta aumentará, deixe que isso aconteça naturalmente. Não force.
Forçando, você poderá ter experiências desagradáveis e até comprometer, com pequenos traumas, o ritmo do seu processo. A experiência de comer tão pouco e ficar saciado também pode ser prazerosa, não resista a ela. Ela faz parte do seu treino, as quantidades aumentarão.

Com esta nova quantidade, é bom que você capriche na escolha dos alimentos. É imprescindível em todo este processo o acompanhamento de uma nutricionista. É muito estimulante participar da equipe multidisciplinar no pré e pós operatório, com uma nutricionista competente como a Drª Andreia De Luca, uma especialista em gastroplastia muito experiente e com ótima estratégia nutricional e de suplementação para os pacientes operados.

Como você vê, não é uma saída mágica, um caminho mais fácil, uma terapêutica para perdedores e que você precise se envergonhar de ter aderido. Mas um caminho pessoal de autodescobertas e que exige um longo processo de adaptação. É uma possibilidade efetiva de transformações pessoais profundas e confiáveis. Quero compartilhar no blog a satisfação que tenho, na clínica individual, em acompanhar lindas e vibrantes estórias de autossuperação.

Precisa, no entanto, ser corajoso para se abrir às mudanças e decretar o fim do ciclo vicioso de antes. Este é o preço para superar esta doença tão sofrida. Isto também te será cobrado na terapêutica cirúrgica. Não se iluda, a diferença é que, nela, os que "vestiram a camisa" do projeto e abriram-se para se redescobrir sem a doença, tiveram sucesso.

Se você está neste grupo, parabéns !!! Se ainda não chegou lá, saiba que isto já foi possível para muitos, pode ser para você também. Estabelecendo uma aliança lúcida com os efeitos da gastroplastia você poderá conquistar uma saúde vibrante, sem obesidade. E, junto, a felicitação de ter trocado a quantidade de comida pelo prazer de saborear, nutrir-se e ficar satisfeito com pouco e de melhor qualidade.