terça-feira, 18 de outubro de 2011

Depois do primeiro ano...

Recentemente, recebi um paciente que já entrou na sala me dizendo: "Pronto, você pode me dar a bronca, vim aqui sabendo que você vai puxar minha orelha". Fiquei olhando-o sem entender bem qual seria o motivo que aquele paciente, operado há 2 anos e meio, mantendo-se com IMC de leve sobrepeso, teria para merecer tanta censura. Até ser informado de sua transgressão: ter engordado 4 Kgs.

Sorri para ele, e continuei apenas ouvindo. Estava diante de um paciente com boa percepção de si mesmo, que, lúcido, compartilhava suas mudanças depois da cirurgia. Com um ar "vitorioso" dizia ter mudado até seu paladar, mas principalmente sua relação com os alimentos. Me chamou atenção o lugar que as frutas passaram a ocupar no seu cardápio, substituindo os antigos beliscos.

Bem adaptado, sem restrição alimentar para qualquer alimento, me falava de suas novas preferências, que excluíam, por exemplo, a antes irresistível gordura da picanha. Lembrou não ter acreditado que isto poderia acontecer com ele - naquela altura, antes da cirurgia, ele se achava um obeso irrecuperável. Se dizendo mais educado, também falou de um novo ritmo de se alimentar, e sua certeza de que "a comida não ia fugir".

Tinha alcançado uma serenidade que o tornava apto a tirar bom proveito e prazer daquilo que comia. Menos excitado, comia o suficiente para estar bem, durante e depois de comer, compartilhando sua satisfação em poder dizer, "obrigado, estou satisfeito". Sua disposição para a vida lhe dizia que estava alimentado e que não havia motivo para desejar as grandes quantidades anteriores à cirurgia.

Quanto mais o ouvia, mais eu percebia tratar-se de um caso bem sucedido. Estava diante de um paciente que hoje comia bem, sem qualquer nostalgia dos tempos da hiperfagia (ingesta de grandes quantidades de comida). Que tinha feito trocas que o felicitavam, e estava pacificado com os alimentos. Era um bom exemplo e mesmo assim tinha o direito de não estar satisfeito com o peso extra adquirido.

Contrariando suas expectativas, no lugar da bronca, lhe dei Parabéns! Pelo seu novo posicionamento. Por ter aproveitado a cirurgia para mudança de hábitos e por ter procurado suporte para tratar de sua apreensão, ganho de peso, assim que o percebeu. Lembrei dos pacientes que, com outra trajetória, só vão procurar ajuda quando a apreensão já virou um sofrimento profundo, justificado pelo grande reganho de peso.

Nossa consulta, então, se voltou para a outra ponta desta equação, a atividade física. Este tema fluiu leve, franco e divertido. No final, estava diante de uma pessoa disposta a treinar (e só treinar) em uma academia de luta que frequentou mais jovem. Além disso, iria finalmente aceitar o convite da esposa para participar das aulas de dança de salão. Motivado, decidia que seu sedentarismo estava no fim.

Neste caso que descrevo, tudo que precisei fazer foi motivar o paciente para atividade física, ajudando-o a não adiar seu início, para que sua queixa do sobrepeso fosse superada. No entanto esta não é a posição mais comum dos pacientes com alguma queixa depois do primeiro ano de cirurgia. Em geral as queixas estão relacionadas a maus posicionamentos, com reganho de peso muito mais significativo.

Tenho me ocupado com casos assim. Pacientes que acreditaram que estava tudo resolvido, ao perderem todo seu excesso de peso no primeiro ano de cirurgia, período em que a cirurgia está no controle da situação. Pacientes que acreditaram que as mudanças estariam garantidas, independentemente do quanto tenham se afastado dos padrões de comportamento característico da obesidade.

Em geral, são pacientes que, além de se manterem sedentários, não viveram o processo de pacificar sua relação com os alimentos e a vivência alimentar, e continuam com um importante sintoma presente na obesidade, a culpa alimentar. Quando não vemos os alimentos como fonte de energia, e combustível fundamental para uma saúde vibrante, eles tendem a se tornar o destino de nossas ansiedades.

Estou empenhado, no apoio psicológico do pós operatório, em fomentar o "ato alimentar autorizado e presente", enfrentando o sintoma da culpa alimentar, com a autorização para comer em plena atenção e proveito. Posso chamar isto de padrão gourmet, uma forma extremamente prazerosa de se nutrir sem culpas, tornando-se uma importante defesa para os estímulos impulsivos e o descontrole alimentar.

Estar presente, em plena atenção, na experiência alimentar, significa que não estamos banalizando algo que é fundamental em nossas vidas. Mesmo assim sei que não é uma tarefa simples e fácil, embora necessária. Sei ainda que exige treino, apoio e muito incentivo, sendo uma tarefa psicológica fundamental no pós. Exercitar o padrão gourmet de se alimentar como fonte autorizada de prazer, sem o sofrimento promovido pelos excessos.

O ato alimentar autorizado, pode e deve ocupar o lugar do ato alimentar envergonhado e escondido, que por isso mesmo, tende ao exagero e descontrole. O ato alimentar, com você presente ao que está fazendo, se torna mais seletivo e você poderá gostar do que está fazendo, sem qualquer conotação destrutiva. Pelo contrário, é você finalmente se cuidando, e no controle, tratando-se com a delicadeza que sempre quis ser tratado pelo mundo.

Parece até mais nutritivo, você participando inteiramente da experiência alimentar , sem distrações. Depois que sua nova fisiologia digestiva estiver amadurecida e seu estômago deixar de ser tão "temperamental", porque ganhou elasticidade e pode receber quantidades maiores de alimentos, é fundamental continuar sem banalizar as ingestas, comendo devagar e saboreando os alimentos.

Quando um paciente me relata que não conseguiu este posicionamento em determinada refeição, e comeu sem sequer saber o que estava fazendo, sempre digo que esta foi uma ótima percepção que teve de si mesmo. Isto é importante, já que ao nos condenarmos com críticas severas, estaremos justamente diminuindo nossa percepção de nós mesmos. Ao aceitarmos o percebido, vamos fortalecendo nossa percepção, que hoje aconteceu depois de comermos; amanhã, enquanto estamos comendo; e mais tarde, até mesmo antes de começarmos a comer.

Para pacientes que, antes da cirurgia, viveram as dolorosas experiências da compulsão alimentar, principalmente para estes, o treino da alimentação autorizada e presente se torna fundamental, e precisa ser levado para toda a vida. Para estes, a delicadeza das ingestas consentidas será o principal antídoto contra o padrão impulsivo de comer para preencher vazios.

Hoje mesmo, recebo um paciente que relata que engordou tudo nos últimos 6 anos, quando comeu para se distrair de seus problemas pessoais, e para consolar suas tristezas. Muito diferente da posição atual conquistada, onde passou a comer pela legítima motivação de se nutrir. Nesta nova posição, ousou dizer que a comida ficou até mais saborosa.

O seu primeiro ano da cirurgia deverá ser aproveitado para desenvolver novas habilidades. O acompanhamento psicológico pode ser útil na revisão de velhos padrões de culpa, vergonha e auto-acusação. Livrar-se igualmente do medo da fome e do medo de perder o controle. Livrar-se do esquema de comer por razões emocionais, e deixar de atribuir aos alimentos o valor de "uma tentação" que só te desqualifica.

Esteja autorizado a comer! É um pensamento de gordo a ideia de que existem alimentos "bons" que os magros apreciam, e os "ruins" que são a sua preferência, e estes você nunca mais poderá comer. Isto não funciona assim. Autorize-se a comer, inclusive sua comida favorita, faça isso de forma planejada, um dia da semana, ou no seu fim de semana, no almoço do domingo, mas o faça presente, sem culpa, no padrão gourmet. As porções razoáveis lhe darão um duplo prazer: o alimentar, afinal trata-se da "comida preferida", e o prazer de não ter se excedido com excessos que geram sofrimento.

Com esta autorização planejada, você estará construindo uma boa defesa contra o descontrole alimentar, estando mais apto a evitar as "tentações" do alimento fora de hora ou de planejamento. Esta é uma autorização que fortalece a disciplina, evitando o doloroso sentimento de que pôs tudo a perder. Você se planejou, comeu autorizado e presente, e pode aferir prazer com a comida e ao mesmo tempo a satisfação com você mesmo, por não ter extrapolado nem engordado com isto.

A cirurgia não é uma solução mágica. Depois do primeiro ano é fundamental que, além da nova fisiologia digestiva, você tenha também desenvolvido novas habilidades alimentares. Como comer sem culpa, devagar, apreciando cada porção de alimento que coloca na boca. Mesmo que você já tenha emagrecido sem esta disciplina, saiba que para manter-se magro estas habilidades serão imprescindíveis.

Depois do primeiro ano, você não poderá comer toda a comida que desejar na quantidade que aguentar, sempre que quiser. Isto vai te engordar e certamente te deixar muito infeliz. Mas você pode planejar comer suas comidas favoritas de forma autorizada, comer com prazer estes alimentos em pequenas porções, e isto te dará uma serenidade alimentar, geradora de felicitação, que não irá te engordar.

Quanto ao fracasso do projeto, ele começa antes da reengorda. Quando ter voltado a comer algumas de suas comidas preferidas acarretar a sensação de culpa que irá arruinar um projeto tão desejado. É preciso trocar, neste momento, a ideia de que "Chutei o pau da barraca e não vou conseguir mais montá-la". Este é sem dúvida um pensamento sabotador extremamente nocivo, que não te dá chance de reparação e de aprender com a experiência.Lembrando, não faça de um eventual deslize um álibi para continuar errando.

Mudar sua maneira de pensar sobre a alimentação te autorizará a comer mais devagar, a apreciar a comida sem culpa e só assim sair da vivência, tão comum, de dias bons e dias ruins em termos alimentares. É bom exercitar o comer de forma consciente todos os dias, e que você guarde como um tesouro sua nova referência alimentar, as pequenas porções que te saciam e alimentam.